sábado, 4 de outubro de 2014

E quem é o autor? Pergunto mais uma vez...

O texto intitulado “O que é um autor” nada mais é do que a transcrição de uma apresentação feita por Michel Foucault aos membros da Sociedade Francesa de Filosofia. O propósito de Foucault, além de fazer algumas correções ao que havia proposto num trabalho anterior, era mostrar em que sentido estavam se desenvolvendo seus estudos atuais. E, a um pequeno questionamento, seus estudos poderiam ser simplificados: “Que importa quem fala?”.

Michel Foucault afirmava que nessa indiferença era possível encontrar o princípio ético da crítica contemporânea com relação à escrita. Mas, para Foucault, não bastava constatar o desaparecimento do autor, era preciso descobrir os locais onde sua função é exercida. Esvazia-se quem fala, mas onde essa função repousa, então?

Foucault começa a construir seu raciocínio através da indiferença, uma espécie de regra imanente da escrita. Escrita que teria se libertado do tema de expressão e se referiria, a partir de então, apenas a si própria. A escrita como processo menos ligado ao significado e mais ao significante, a construção de espaços onde o sujeito da escrita está sempre a desaparecer. E é aí que surgem as aproximações feitas entre escrita e morte.

A principal aproximação tem a ver com o apagamento dos caracteres individuais do sujeito que escreve, um sacrifício voluntário em que ele próprio retira do que escreve todos os signos de sua individualidade.

Michel Foucault então argumenta que existem noções adjacentes à noção de autor que precisam ser evidenciadas e problematizadas para que o tema central seja mais bem compreendido. Ele começa com a noção de obra.

Ele diz que é função da crítica analisar a obra em sua estrutura em vez de tentar encontrar relações entre obra e autor, reconstituindo um pensamento ou uma experiência. Porém, o problema que se apresenta é: o que é uma obra? É aquilo que um autor escreve? Se um indivíduo não for autor, o que ele escreve não é obra? E se ele for autor, tudo o que escreve faz parte da sua obra? Foucault não apresenta respostas a estes questionamentos no referido texto, mas fica claro que ele considera a unidade da obra tão problemática quanto a individualidade do autor.

Então, Foucault volta a abordar a noção de escrita. “Trata-se, sim, de localizar o espaço deixado vazio pelo desaparecimento do autor, seguir de perto a repartição das lacunas e das fissuras e perscrutar os espaços, as funções livres que esse desaparecimento deixa a descoberto”.

Michel Foucault dedica, neste ponto, alguns minutos (e algumas páginas) à análise de algumas questões. A primeira delas: o que é um nome de autor?

Para ele, esse nome é bem mais que uma indicação, ele está situado entre os polos de uma designação e uma descrição. O nome do autor possui uma função classificativa dos discursos e permite agrupar um certo número de textos, delimitá-los, selecioná-los, relacioná-los. Isso fica bem claro quando tomamos por exemplo autores da antiguidade, que após alguns estudos, descobriu-se serem mais de uma pessoa, que assinavam sob o mesmo nome. Esse fato indica que se estabeleceu entre esses textos uma relação de homogeneidade.

Então, o nome do autor serviria para caracterizar um modo de ser do discurso, dar a ele certo estatuto no interior de uma sociedade e de uma cultura. Na nossa civilização, porém, existem discursos que são providos da função autor, ao passo que outros são dela, desprovidos.

Foucault parte para a análise da função autor.

Os textos, livros e discursos passaram a ter autores definidos na medida em que passou a ser possível condená-los, na medida em que os discursos se tornaram transgressores. “Assim que se instaurou um regime de propriedade para os textos, assim que se promulgaram regras estritas sobre os direitos de autor, sobre as relações autores-editores, sobre os direitos de reprodução, etc (...), foi nesse momento que a possibilidade de transgressão própria do ato de escrever adquiriu progressivamente a aura de um imperativo típico da literatura”.

A função autor, no entanto, não se exerce de forma universal e constante sobre todos os discursos a todo tempo. Houve um tempo em que um texto literário era bem aceito e posto em circulação mesmo que não soubessem nada sobre sua autoria. No outro extremo disso, na Idade Média, textos científicos só tinham validade a partir da constatação do nome do autor.

Foi entre os séculos XVII e XVIII que os discursos científicos passaram a ser considerados mais por suas demonstrações e embasamentos do que por uma chancela nominal. E, por sua vez, o discurso literário não mais se desvinculou da função autor (de onde esse texto veio, quem o escreveu, em que data, em que realidade sociopolítica...).

Uma outra característica da função autor é que ela não se forma espontaneamente com a simples atribuição de um discurso a um indivíduo. Ela é o resultado de uma operação complexa de construção do ser racional chamado autor, em que parece haver uma certa invariabilidade das regras de construção. O modo como a crítica literária definiu por muito tempo o autor deriva do modo como a tradição cristã autenticou os textos de que dispunha.

Segundo São Jerônimo, a homonímia não basta para identificar autores de determinadas obras, pois era bastante comum indivíduos diferentes assinarem seus textos com um mesmo codinome. O nome não era marca que individualizasse uma obra. São Jerônimo, então, apresentou um processo de análise para se chagar às obras reais de determinado autor: o autor tem nível constante de valor (devia-se desconsiderar livros inferiores aos outros dentro de uma coleção); o autor apresenta coerência conceitual ou teórica (devia-se desconsiderar texto que não tivessem conformidade doutrinária com os outros); o autor tem unidade estilística (devia-se excluir textos escritos com palavras e de maneiras diferentes dos demais); o autor como momento histórico definido (devia-se excluir textos referentes a acontecimentos e personagens fora do contexto temporal do autor). O autor seria, assim, uma manifestação da unidade das obras.

Um texto traz sempre consigo signos que remetem para o autor. Esses signos são pronomes pessoais, advérbios, etc. Mas, esses elementos não agem da mesma forma em textos que apresentam a função autor e textos que não apresentam. Numa carta, o pronome pessoal de primeira pessoa refere-se ao escritor. Já num romance narrado em primeira pessoa, por exemplo, quase nunca os enunciados vão se referir exatamente ao escritor, mas sim a um alterego. De qualquer maneira, no caso do romance, seria igualmente equivocado procurar o autor no escritor ou no locutor fictício. A função autor acontece exatamente nessa divisão.

Ser autor, na ordem do discurso, pode ser bem mais que ser autor de um livro, pode-se ser autor de uma teoria, uma tradição, uma disciplina. Nesse contexto, outros livros, de outros autores, poderão tomar lugar dentro de determinada tradição. Temos aí, uma posição transdiscursiva, segundo Michel Foucault.

Durante o século XIX, surgiram bastantes “fundadores de discursividades”: autores que não foram apenas autores de seus livros, mas geraram a possibilidade e a regra de formação de outros textos. Os instauradores de discursividades tornaram possível algo diferente do que um autor de romance torna possível, eles abriram o campo a semelhanças e analogias que têm por modelo a sua própria obra – com seus signos, figuras, relações, estruturas. Foucault utiliza como exemplo de instauradores de discursividades, Marx e Freud. Eles não só tornaram possíveis certo número de analogias, como também de diferenças. Diferenças que, no entanto, pertence ao que eles fundaram.

A instauração de discursividades pode parecer o mesmo que a fundação de uma ciência, mas no caso da ciência, “o ato que a funda está no mesmo plano com as suas transformações futuras; faz de algum modo, parte do conjunto de modificações que ela torna possíveis”. Já a instauração da discursividade não faz parte das transformações futuras e permanece retraída. É por isso que se encontra sempre a necessidade, nas discursividades, do “retorno às origens”.

Para que haja retorno é preciso que tenha havido esquecimento. O que manifesta o ato de instauração de uma discursividade, o que dele deriva, é o que estabelece o afastamento e o que o inverte. É necessário que esse esquecimento seja investido em operações que se possam ser analisadas e entendidas pelo próprio retorno ao ato instaurador. “O reexame do texto de Galileu pode muito bem mudar o conhecimento que temos da história da mecânica, mas nunca mudar a própria mecânica. Em contrapartida, o reexame dos textos de Freud modifica a própria psicanálise”.

Michel Foucault chega à conclusão que sua análise sobre os temas acima tratados poderia servir a uma tipologia dos discursos. Porém, essa tipologia não poderia ser feita somente a partir dos caracteres gramaticais do discurso ou das estruturas formais. Para ele, deveriam ser levadas em consideração propriedades ou relações propriamente discursivas, como a relação (ou não relação) do autor com as categorias de discursos.

Para Foucault, está no centro dos questionamentos sobre o tema o estudo dos discursos nas modalidades da sua existência, buscando apreender os pontos de inserção, modos de funcionamento e dependências do sujeito nessa fundação. Como, com que forma, sob que condições aparece o sujeito na ordem do discurso? Que lugar ele ocupa, que funções exerce, que regras obedece? Esse sujeito não está mais na origem do discurso, é uma variável desse discurso; e a função autor é apenas uma das funções possíveis do sujeito. Possível, pois não parece, para Foucault, indispensável que a função autor permaneça inalterada. É possível imaginar uma cultura onde os discursos circulassem normalmente sem qualquer menção a um autor específico.



“(...) estou inteiramente de acordo sobre o fato de não ser Michel Foucault o autor, e certamente também não o instaurador, do que acaba de nos dizer”.


Resenha do texto "O que é um autor?", de Michel Foucault. O texto faz parte do livro "Ditos e Escritos: Estética – literatura e pintura, música e cinema (vol. III)”. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. p. 264-298.

 Thales Estefani é formado em Comunicação Social pela UFRJ e atua principalmente nas áreas de comunicação visual, artes gráficas e produção editorial.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ilustração e o Tempo

MELLO, Roger. "O próximo dinossauro". 2 ed. São Paulo: FTD, 1999.

"Diferentemente da espacialidade, a expressão da temporalidade é um paradoxo quando se refere a livros-imagem, por isso exige uma variedade de recursos e técnicas próprios para que possa ser percebida nas histórias narradas. Este trabalho focaliza a expressão do tempo na narrativa visual a partir da análise dos livros-imagem – obras que não utilizam o discurso verbal em suas narrativas – de autoria do premiado ilustrador Roger Mello. Os seis livros-imagem aqui analisados, destinados ao público infantil, demonstram este repertório, que depende da participação ativa do leitor – de sua bagagem estética e de sua experiência de mundo – para que essas estratégias sejam eficazes."
(...)

Esse é o primeiro paragrafo do artigo "O tempo nos livros-imagem de Roger Mello", de autoria de Thales Estefani e André Villas-Boas.
O artigo foi publicado no último número da Revista Z Cultural, a revista virtual do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Você pode continuar a leitura do artigo clicando no link a seguir: Revista Z Cultural 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Crônica: Em defesa da possibilidade da tinta acrílica ser o que eu quiser!

 Toyart do gato Nicolau ( © 2013 Thales Estefani. Todos os direitos reservados, via Behance.)

Num sábado qualquer de dezembro eu precisava de tinta acrílica.
Um amigo oculto self-made estava marcado para alguns dias após e tive a ideia de fazer um toyart do bicho de estimação do meu amigo para presenteá-lo. O gato Nicolau.
Seguindo a técnica de construção de toyart com materiais de baixo custo, que aprendi com Rogério Camolez, precisava de tinta acrílica para pintar o gato. A técnica em questão já foi aperfeiçoada e utilizada amplamente pelo próprio Rogério, e eu mesmo já havia construído um toy seguindo essa técnica durante um workshop.
Eis que, ao entrar em uma loja ESPECIALIZADA em materiais para artes gráficas (“especializada” assim mesmo, em caixa alta, pra assustar) e buscar pelos potes de tinta acrílica fui abordado por uma vendedora que me questionou “Desculpa perguntar, mas para quê você quer essas tintas?”. Eu, inocentemente, respondi que era pra fazer um toyart e ainda tentei explicar, com um sorriso estampado no rosto “É tipo um boneco, uma escultura pequena”. A vendedora, no alto de todo o seu conhecimento sobre materiais (ou não), simplesmente tirou as tintas que estavam na minha frente, em cima de um balcão, dizendo “Não, essa tinta não vai servir pra isso!”.
Ora, mas o que é “servir” em arte? Que tipo de subserviência da criação ao material é essa imaginada pela vendedora?
Na escola a gente aprende desde pequenininho que o lápis preto, de grafite, é pra escrever. O outro, colorido, é pra pintar. Que só é sério o que está escrito à caneta. Que a tinta a gente pega com o pincel... Mas na escola a gente também aprende que pode colocar o giz de cera na chama da vela pra pintar com gotas fluidas de cor, que a lixa de madeira pode ser papel, que dá pra pintar com os dedos e com as mãos lambuzadas de tinta. Só temos essas duas visões do material na escola porque lá é o lugar de experimentar e saber se você vai querer, pro resto da sua vida, seguir as regras, destruí-las ou reinventá-las... porque, afinal de contas, nem existem materiais específicos pra arte. Existem materiais específicos para artesanato.
Porque o artesanato é diferente da arte. O artesanato deve ser o que você espera dele. A arte deve ser tudo o que você não esperava.
Imaginem se alguma vendedora dissesse para Yves Klein que ele não poderia pintar com o corpo de outras pessoas, que não poderia tacar fogo nas pinturas, que não poderia pintar com abrasões meteorológicas... Claro que eu estava em uma posição bem mais medíocre que Klein, porque queria apenas fazer um toyart. Porém, me impedir de comprar algo para realizá-lo é como tacar uma maçã na boca de um político durante um discurso “blablazento”. Alguns até merecem, mas isso não se faz.
É claro que, esperar que a vendedora da loja se questionasse sobre o fazer artístico ou sobre uma subserviência ou não da matéria-prima é pedir muito. Mas, poxa, se nem a lógica capitalista fez com que ela me vendesse as tintas, mesmo que não servissem pra mim, apenas para lucrar mesmo, creio que eu possa classificá-la como uma péssima vendedora.
E o final da história?
Falei “Ta certo”, virei as costas e nunca mais entrei pela porta daquele lugar. Comprei tudo que eu precisava naquelas grandes lojas onde não há questionadores, você pega tudo o que quer, passa no caixa e “Boa tarde!”.

Thales Estefani

Geraldinho Nosferatus, outro toyart pintado com tinta acrílica ( © 2013 Thales Estefani. Todos os direitos reservados, via Behance.)